Entrevista Jorge Vitório

Vitório, como foi o processo de sua chegada ao Fluminense?

JV – Antes de eu ir ao Fluminense, eu já havia sido convidado pelo Corinthians, tinha 16 anos, na época minha mãe impediu, disse que eu só iria depois de 18 anos. Posteriormente o Vasco veio também. Mais tarde, o Fluminense veio jogar aqui em Volta Redonda, na época eu jogava no time principal do Barra Mansa. Havia um funcionário, do time da escola técnica que eu jogava, que era Fluminense doente. Como o Castilho havia vindo, ele fez questão de me apresentar a ele, ao Antoninho também. Eles me convidaram para treinar no clube no início do ano seguinte, e eu fui. Quando eu cheguei lá, houve um treino contra o juvenil, a linha do time era Jorginho (campeão em 66), Amoroso e na esquerda Gilson Nunes. Aí treinei 20 minutos só, treinei contra o time titular, começaram a ter umas faltas perto da área, Gilson chutava demais na época, eu mandava abrir a barreira e pegava tudo. Quando acabou o treino, o treinador João Carlos na época, me disse que eu “estava visto, aprovado, não precisa treinar mais”.

Decisão campeonato de aspirantes, 1964. Fonte: Acervo do atleta.

Isso foi em que ano?

JV – Isso foi em 1964. Aí eu conversei com eles, “Sou estudante de escola técnica e tenho que me apresentar ao exército em Volta Redonda”, mas os estudantes técnicos eram dispensados. Eles queriam que eu fosse de imediato, mas falei que eu ia à Volta Redonda, estudar um mês, me apresentar, pegar meu certificado e aí poderia vir. Assim foi feito, fizemos um acerto financeiro, eles queriam conversar com meu pai. Queriam que eu assinasse um “Contrato de Gaveta”, um contrato em branco, antigamente os jogadores do juvenil assinavam esse tipo de contrato, para que quando você estourasse no profissional, servia como uma maneira de prender você ao clube. Mas meu pai disse que bastava a palavra e que só assinaria contrato quando me profissionalizasse. Aí já aconteceu meu primeiro problema, fui convocado para a seleção, para os jogos olímpicos do Japão. Chegando na última hora, o Carlos Nascimento me mandou cortar, ele era do Fluminense nessa época da CBD. Me mandou cortar porque não tinha esse Contrato de Gaveta… Era para ir eu e o goleiro do Botafogo, acabaram indo os dois do Botafogo. Foi uma das minhas primeiras decepções que eu tive com o futebol. Então, saindo do júnior e indo para os aspirantes, fui considerado revelação do Campeonato Carioca em 1964, disputamos até uma final contra o Vasco. Depois do jogo chamaram meu pai para assinar o contrato profissional, eu ainda tinha mais um ano de aspirantes, joguei em 64 e 65, em 66 já assumi a vaga de titular do clube.

E assumindo a responsabilidade deixada por Castilho, né?

JV – Eu estreei num jogo em Juiz de Fora, o Flu perdendo de 2×0, aí no intervalo o Tim tirou o Márcio e me botou. O próximo jogo, amistoso antes de começar a Taça Guanabara, foi em Barra do Piraí contra o Royal, invicto a 52 partidas. Márcio que veio falar comigo avisando que eu jogaria. Ganhamos de 1×0, gol do Samarone, eu fui muito bem no jogo. Na semana seguinte estreamos na Taça Guanabara contra o Botafogo, em 66, fomos campeão desse campeonato. Fui titular 66 e 67, em 68 eu operei o joelho, aí quando eu estava voltando, contrataram o Félix. Mas essa é outra história da minha vida…

Apesar do Félix ter chegado, você disputou muitas partidas pelo Flu, não é?

JV – Eu joguei mais de 180 partidas, tirando juvenil e aspirantes. Antes de te falar o que ocorreu, tenho que te falar o seguinte: O Félix foi um grande amigo meu fora de campo e rival dentro dele, tanto é que a mulher dele quando viajava para São Paulo com suas filhas eu que ia pra casa dele pra fazer um samba, tomar uma cerveja. Nós fizemos uma amizade muito grande, mas o que acontece é que quando eu era titular, o Flu não tinha um bom reserva à altura, aí o Carlos Vilella (advogado) foi pra São Paulo contratar o Orlando, titular da Portuguesa. Félix estava na reserva, a intenção era fazer uma dobradinha entre eu e Orlando, mas quem veio contratado foi Félix. Passou o início da semana com ele treinando, chegou no domingo ele era titular, não me deram nem a chance de disputar posição. Ele foi bem, foi jogando, mas era muito franzino e machucava muito, entendeu? E toda vez eu entrava e ganhava a posição. Mas, eu não tinha padrinho lá dentro, o padrinho do Félix era o Dr. Vilella, que exigia que ele jogasse, falava que Félix era mais velho, era casado, tinha filhos, tinha sido contratado por um valor alto… Portanto, tinha que jogar. Na época o Fluminense tinha 3 tipos de salário: salário de seleção, salário de titular e salário de reserva. Quando se jogava 3 ou 4 partidas como titular, já mudava o patamar. Eu, como ganhava salário de seleção brasileira, que era igual o do Félix e Denílson, ganhava bicho integral, eu ficava quieto e deixava…

Falando em técnicos, qual foi o mais importante da sua carreira no Fluminense?

JV –  Só trabalhei com técnico bom, o único que eu tive problema foi o Duque. Os que pra mim mais se destacam são: Tim, Paulo Amaral, Telê e Evaristo. Antes do Duque, havia um supervisor chamado Almir de Almeida, que quando chegou, contratou 3 jogadores: um goleiro, um meia ponta de lança e um centroavante. O goleiro era o Jairo, o meio de campo era Jair, e o centroavante era Mickey. Aí ele fez de tudo pra me tirar e colocar o Jairo, até que o colocaram num jogo contra o Campo Grande, o Flu ganhou de 4×2, mas Jairo falhou nos dois gols. O Almir disse que no próximo jogo era o Jairo novamente, porque era contra o Olaria e ele precisava ir bem para tirar a pressão da torcida e da mídia. Nesse jogo, eu estava sentado no banco, chegou um conselheiro do Fluminense que era muito meu amigo, chamado Seu Herculano, chegou atrás de mim e perguntou: “Doutor, você tá machucado?”, eu disse que não, que estava sentado na reserva por causa do Almir de Almeida. Aí o Fluminense perdeu pro Olaria por 1×0, com um gol de falta do meio de campo… O Seu Herculano que estava atrás de mim, teve um infarto e morreu na hora! Ficou nessa situação até o Almir ir pro Corinthians e levar o Jairo com ele, que inclusive, apesar de não ter ido bem no Fluminense, foi um grande goleiro no Corinthians, no Paraná também, um homem de quase 2 metros de altura com um coração enorme. Eu, graças a deus, os goleiros do Fluminense foram todos meus amigos, agora dia 28 vai ter um encontro lá no Fluminense: “Geração de 60”, eu adoro os caras e os caras me adoram, principalmente pela minha maneira de jogar.

Pois é, eu estava comentando com o Zé Roberto e ele me disse duas coisas: que você era excelente em sair do gol, não ficava preso debaixo das traves; e que era conhecido como galã lá na Urca (risos).

JV – É verdade (risos), eu era boa pinta, mas muito bicho do mato, não dava confiança para ninguém… Eu só não galguei postos mais altos na minha posição porque não tinha padrinho, não puxava o saco de ninguém. Mas a torcida me adorava, eu morava na concentração e frequentava muito as Laranjeiras.

Posso dizer que seu padrinho no clube foi o Castilho?

JV – No último ano de Castilho, os goleiros que estavam na reserva, Márcio e Edson Borracha, queriam o lugar dele, isso em 64. Então, quem treinava o Castilho era eu, treinávamos e conversávamos juntos também. Ele, inclusive, era muito parecido com meu pai. O Gilson Nunes, na concentração, até os confundiu. Eu tive essa amizade muito forte com ele, depois como técnicos, quando eu ia pro Mato Grosso, ou ele para Volta Redonda, sempre nos encontrávamos. Depois nos encontramos em Seul, eu era treinador da seleção de Omã e ele da Arábia Saudita, nós ficamos no mesmo complexo que havia sido usado nas olimpíadas. Almoçávamos e jantávamos todo dia juntos, saíamos para fazer compras, tudo! Ele me emprestou uma casa que ele tinha em S. Conrado, para se eu quisesse passar alguns dias com minha família. Aí acabou esse torneio, ele foi para Arábia Saudita entregar a seleção dele e eu para Omã entregar a minha. Quando eu cheguei no Brasil e fui passar na alfândega, o rapaz me parou e perguntou se eu era o Vitório do Fluminense, falei que era, ele me disse: “O Castilho foi enterrado ontem”… Eu passei até mal, eu fiquei com as pernas bambas, uma coisa de louco. Praticamente os últimos 30 dias de vida dele foram comigo. Quando falam que sou herdeiro do Castilho, foi porque ele era meu professor na vida.

Em 73 você foi titular da equipe em uma excursão na África: Angola, Zâmbia, Tanzânia, Lourenço Marques (atual Maputo, Moçambique), Lesoto. Estava pesquisando em uma antiga edição da Revista do Fluminense, e há fotos inclusive de encontros com o Rei Moshamed (Lesoto), o primeiro-ministro da Tanzânia, e o presidente Kaunda da Zâmbia. Quais suas lembranças dessa viagem?

JV – Essa excursão foi algo maravilhoso, tivemos várias vezes em Joanesburgo, conhecemos o sistema de apartheid lá, o sistema racista. Mas foi uma excursão muito boa, os times africanos não eram de primeiro nível, jogamos e ganhamos. Acho que foram 2 meses mais ou menos, joguei os jogos todos. Depois fomos pra Europa, joguei todos os jogos novos de novo. O problema que eu tive no Fluminense, depois de Carlos Nascimento e Almir de Almeida, foi o Duque. Naquela época eu era um dos jogadores mais conhecidos e era tietado muito, conhecia o pessoal da aviação toda, as aeromoças. Aí o Duque, invejando, começou a me perseguir. Teve um jogo, em Santa Catarina, que eu saí do Rio como titular, o Gerson (Canhotinha de Ouro) estava nesse jogo. Chegou de noite, o Duque resolveu fazer uma preleção, começou a falar do time adversário: “O goleiro joga assim, a defesa assim, o ataque assim…”, e foi falando. Quando terminou, ele se despediu, deu boa noite e estava indo embora. O Gerson: “Duque, posso lhe fazer uma pergunta? E nosso time, como vai jogar?”, sei que nessa hora eu dei uma gargalhada, ri sozinho, ele mandou todo mundo sair, só ficou eu e Gerson. Ele começou a falar: “Você não sabe com quem tá se metendo!”, e eu respondia que não ia aceitar desacato dele. Quando chegou no dia seguinte, ele me colocou no banco e pôs o Roberto no gol. Dali pra frente ele me perseguia, perseguia, perseguia… Aí eu escrevi uma carta pro Fluminense, disse que gostaria de continuar no Fluminense, mas que gostaria de ser emprestado até o Duque sair. Uns 8 times vieram falar com o clube, mas o Roberto Pinto, do Olaria, falou comigo: “Antes de assinar com qualquer clube, espera o Sr. Mello falar com você”, fui no Olaria e Seu Mello ia dobrar a proposta de qualquer clube pra eu jogar 4 meses. Fui bem lá, junto com Paulinho de Almeida, fizemos um campeonato muito bom. Voltei pro Fluminense, renovei o contrato, mas surgiu uma troca com Mario Sergio. O Vitória só aceitava a troca se fosse comigo. Aí, em 75 fui trocado quando o Horta estava fazendo a Máquina, e eu que já estava a 11 anos no clube e cansado de ser sacaneado lá, de eu entrar em campo, ganhar posição, pra depois me tirarem. Aí fui pro Vitória, joguei 2 anos, não me pagaram as luvas prometidas, nem os 15%. Tinha 5 meses de salário atrasado, quando fui reclamar eles contrataram o Andrada… Que era meu amigo aqui do Rio, ele até me perguntou: “O que houve?”, eu respondi o que tinha acontecido, ele propôs o seguinte: “Eu jogo dois jogos, finjo que me machuco, e nós alternamos”. Fizemos isso até descobrirem, me afastaram e tive que colocar eles na justiça, nessa eu ganhei meu passe. Foi aí que fui pro Vila Nova de Goiás, onde fui tetracampeão e encerrei minha carreira em 1980.

Muitas histórias Vitório, muito obrigado por nos contar uma trajetória tão importante no clube que é escola de goleiros.