Entrevista Zé Mário

Entrevista com Zé Mário, grande volante da primeira equipa da Máquina Tricolor. Experiente craque e treinador, Zé Mário conta de sua despedia da engenharia eletrônica e seu ingresso no futebol. Além disso, tricolor, fala de todo seu carinho pelo clube.

Fonte: Revista Placar, 12 de dezembro de 1975.

Pra mim é um prazer enorme estar conseguindo falar com você Zé Mário! A profissão de jogador é mexer com a paixão de milhões de pessoas, muito obrigado por me atender assim.

Z.M – Você tá sendo diferente, porque o Fluminense é o pior clube pra fazer isso. O Flamengo me homenageia todo ano com uma camisa desde 74, tem dois anos que não dão por causa da pandemia. Mesmo eu tendo declarado que sou tricolor, já disse em outra entrevista, quando eu morrer quero que minhas cinzas sejam postas metade em cada gol no Maracanã. Pra quando a bola for entrar, eu salvar o gol do Fluminense, e se no outro gol a bola for pra fora, eu ajudar a colocar pra dentro. Inclusive o Fluminense me pediu por escrito até para colocar essa história num museu em Laranjeiras, eu mandei tudo por escrito e tal, nunca me convidaram pro museu, nem sei se a entrevista está lá. Isso tem mais de 10 anos.

É algo que sofro, apesar de ser somente torcedor, o clube não homenageia suficientemente.

Z.M – Assim, eu particularmente, penso que não há obrigação de se fazer isso. Fui pago, fui profissional, mas ainda assim. É legal para a memória do clube e para a nossa memória. O Flamengo dá atenção pro ex-atleta, o Fluminense é triste. Espero que você recupere isso tudo e faça um bom trabalho.

Estamos aqui pra isso, dedico um tempo até anormal. O Fluminense significa muito pra mim, e ver como o clube trata os ex-atletas… É uma coisa meio neurótica, o clube e os atletas são uma coisa só, parte da identidade. Eu tinha separado umas perguntas, para falarmos de seu começo no futebol, sua ida pro Fluminense, a Máquina. Como foi seu início no futebol?

Fonte: Gazeta Press.

Z.M – Eu joguei no infanto-juvenil do Fluminense também. Foi no infanto do Flu que eu comecei, em 1965 com o Pinheiro. Eu saí do futebol de salão e fui pro Fluminense no campo, meu primeiro clube de campo. Com Pinheiro, Sérgio Américo, Carlos Cezar (zagueiro), Peri (goleiro). Você não conhece porque não é da sua época (risos).

O Pinheiro sim! O próprio Zé Roberto, Rubens, todos reverenciam, passaram por ele.

Z.M – Eu até hoje na minha carreira de técnico faço treinamento do Pinheiro, eu falo pra todos: “Esse treino aprendi com Pinheiro”. Muita coisa que ele falou levei pro resto da minha vida, teve uma importância sem igual. 

Você então sai do infanto-juvenil do Flu? Não se profissionalizou lá?

Z.M – Não, porque eu estudava no São Bento, eu perdia duas aulas por dia para treinar no Fluminense. Obrigado pelo meu pai, ele me obrigava a ir nos treinos e eu não queria. Queria ser engenheiro eletrônico. Aí quando chegou no final do meu primeiro ano do Fluminense, meu pai falou: “Escolhe o salão ou o campo”. Acabei escolhendo o salão para poder estudar. Meu pai queria me bater. Parei durante seis meses, só nas férias um amigo me levou pra umas peladas no Bonsucesso, aí durante essas férias estava treinando e eles quiseram que eu ficasse. Mas assim, eu havia saído do Fluminense para poder estudar, não ia perder meus estudos por causa do Bonsucesso. Aí o treinador me falou que eles jogavam aos domingos, se eu treinasse só sábado, podia entrar e jogar no domingo. Não ia treinar durante a semana, consegui conciliar, até que teve o momento que decidi ser jogador de futebol e não mais engenheiro eletrônico. Nesse mesmo momento, aos 18 anos, pensei: “Bem, quando parar, vou ser treinador de futebol”, já tinha isso na cabeça, não tinha outra opção. Fiz educação física, me formei, a ideia já era ser treinador. Eu não podia pensar em outra coisa.

Você do Bonsucesso foi para o Flamengo então?

Z.M – Aí fui pro Flamengo, entrei com passe livre por falta de pagamento, aliás, mais porque briguei com presidente e diretor. Não recebia, aí fui pro Flamengo.

E como foi, enfim, ir pro Fluminense? Aquele clube que lhe formou quando criança?

Z.M – Sabe o que acontece? Sempre fui profissional nas coisas que faço, me pagam e eu me dedico de corpo e alma. Para mim, o Flamengo foi Flamengo, me dediquei de corpo e alma, fui pro Fluminense me dediquei de corpo e alma, fui pro Vasco e Portuguesa também. Então assim, quando cheguei no Fluminense eu já tinha sido profissional durante 3 anos no Flamengo, mudaram as cores da camisa, mas minha atitude era a mesma. Foi bom ter ido porque juntei uma coisa na outra, e ainda para um timaço. No time que foi formado, dava prazer de jogar, além de ser torcedor do Fluminense, aquilo foi a glória para mim.

Sabe escalar esse time de 75?

Fonte: Terceiro Tempo.

Z.M – Sem dúvida! Félix, Toninho, Assis, Silveira, Marco Antonio. Agora começa a complicar, eu jogava, mas ainda tinha Rivelino, Paulo César, Cleber. Era tanto jogador bom…  tinha Manfrini, Gil, Mário Sérgio, e o Zé Roberto, porque não tinha como eu ficar marcando sozinho. Aí, ainda jogavam Pintinho, Edinho… Era muita gente boa pra jogar, podia jogar a camisa para o alto e quem entrasse ia jogar, e jogar bem. Foi muito bom, muito bom esse tempo no Fluminense. Uma pena que eu tenha ficado um ano só, porque o Didi queria me transformar em lateral direito.

Didi técnico do Flu. Fonte: Pinterest Michael H

Foi por isso que você saiu?

Z.M – Foi por isso que eu saí, em 75 eu joguei 73 jogos dos 75 que o Fluminense fez, tudo como titular. Uma eu estava machucado com tornozelo doendo, e outra fui poupado porque o jogo não valia nada. Aí quando acabou o ano, o Didi veio e queria me transformar em lateral. Falei pra ele que não tinha condições, eu tinha perna curta, e naquele tempo tinha muito ponta veloz. Eu não ia conseguir correr atrás desses caras. Ele me disse que eu não jogava mais com ele, aí fui falar com Horta. Ele fez de tudo pra eu ficar, queria dobrar meu salário, falou pra eu ficar no clube, que as coisas iam se acertar. Eu disse que não ficava, primeiro porque é meu clube de coração, não queria confusão, depois porque, num aperto eu ia pra qualquer posição, zagueiro até ponta, mas sou volante, treinar de lateral eu não ia. Não queria confusão, preferi sair. O presidente me perguntou se podia me colocar no troca troca, disse que podia.

E como foi participar desse evento tão histórico do futebol carioca?

Z.M – O Horta foi um cara muito inteligente, eu sei que ele não foi muito bom em finanças (risos), porque gastou coisas que o clube não comportava. Mas ele foi muito importante pro futebol brasileiro, quando ele viu que o  time do Fluminense ia ganhar tudo de novo e que as rendas estavam caindo assustadoramente, só tinha renda Fluminense e Flamengo. Os outros times davam sempre prejuízo, o que ele fez? Fortaleceu todos os clubes, no troca troca ele diminui a folha dele e aumentou as rendas dos estádios, o Vasco tinha um bom time, o Flamengo também, e Botafogo também, todos municiados com bons jogadores. transformou o Campeonato Carioca, se eu nao me engano o campeonato de 76 foi a maior média de público da história.

No troca troca foi você, Abel, e Marco Antônio pro Vasco?

Z.M – Isso, em troca de Luiz Carlos e Miguel.

E realmente não há mais pessoas como Horta. Consegue imaginar qualquer coisa parecida acontecendo hoje em dia?

Z.M – Sem chance. Quando eu falo que ele prejudicou o Flu financeiramente, pelas contratações fortes que fez, o Fluminense não tinha essa mania de contratar jogadores como Rivellino, PC Caju. Fazia em casa normalmente. Ele foi assim, de uma coragem ímpar. Hoje a maioria é dinheiro próprio, vai dar uma volta e vai pros caras. Ninguém vai fazer o que o Horta fez, ele fez pelo Fluminense e pelo futebol. 

E Zé Mário, embora sua passagem no clube tenha sido breve, ela foi também muito intensa. Tem uma partida memorável, contra o Bayern de Munique, com 5 campeões mundiais de 74 em seu time titular. Mais de 100.000 pessoas no Estádio. Quais suas lembranças desse dia?

Fluminense x Bayern de Munique. Fonte: Revista do Fluminense.

Z.M – O resultado não diz o que foi o jogo. Porque a gente deu um baile no Bayern. Só que eles tinham uma defesa muito boa e suportaram, era pra ter sido 3, ou 4 a zero.

Estamos falando de Beckenbauer também, né Zé Mário (risos).

Z.M – Beckenbauer jogando, e ainda assim o gol nosso ainda foi contra. O resultado não diz o que foi o jogo, Mario Sergio fez o que quis. Foi lindo o jogo, todos que viram comentam até hoje. E foi muito bonito, o time do Fluminense jogou maravilhosamente bem. 

Lembra da campanha MOBRAL? Foi a primeira vez que uma publicidade estampou a camisa de um time de futebol. Tudo bem que não era pago, o Horta que estava divulgando a campanha.

Z.M – Lembro do MOBRAL, mas não lembrava que estava na camisa para falar a verdade. Só pode ser de quem a ideia? Do Horta… Outro presidente faria isso? Ele tinha uma visão, um cara estudioso, inteligente, me dou com ele até hoje. Já fui lá na Santa Casa Misericórdia conversar com ele algumas vezes. 

Eu tenho ele como o maior presidente da história do clube. Inclusive estava vendo uma entrevista dele esses dias, descobri uma coisa que não sabia, ele foi chefe de delegação algumas vezes do Flamengo, Vasco. Veja isso, o presidente do Fluminense sendo chefe de delegação de outros times cariocas.

Z.M – Ele foi chefe de delegação do Vasco na França, eu estava lá jogando no Vasco, no Torneio de Paris. Todo mundo gostava dele, porque era um cara muito inteligente, que sabia levar as coisas, um juiz íntegro.

Eu tinha mais uma pergunta para lhe fazer. Você era volante, e nunca foi sua função fazer gols, mas tem um gol muito importante pelo Fluminense em 75, contra o Rio Negro lá em Manaus. O que você pode falar dessa partida?

Z.M – Eu fui vice-artilheiro do Carioca quando joguei no Bonsucesso, só batendo pênalti e falta. Nunca fui goleador, no futsal jogava de ala esquerda e não era goleador. Mas toda minha carreira quando meu time precisava eu fazia gol, se a gente empata ali em Manaus sairíamos do Brasileiro. No Flamengo e Vasco também, quando precisava eu saía pra frente fazer gols. Esse do Fluminense, o jogo estava empatado, precisávamos ganhar. Fui pra área, a bola passou em frente ao gol e só botei pra dentro, tava na pequena área, fui na emoção porque precisava. Não sei, aprendi na minha vida, com Pinheiro e treinadores da minha base, que o mais importante é ganhar… Tem que ganhar, não quero saber, boto isso na minha cabeça sempre. O Flamengo uma vez tava perdendo de 1×0 pro América, até que depois de levar um beliscão de Orlando Lelé, dei um soco na cara dele. Ficou todo mundo querendo me bater, teve um escanteio, sabia que iam todos atrás de mim, puxei a marcação e alguém veio e fez o gol. Outro ainda, em 74, 1×1, tínhamos que ganhar. Peguei a bola para mim e fui pra área para cavar um pênalti, driblei o Ivo Wortmann, quando eu ia entrar na área alguém me deu um tranco por trás e falta. Zico fez o gol. Fiz muitos gols assim indiretamente, só com movimentação. Inclusive o Zico lançou um livro ontem e tá lá esse gol, tem ele narrando esse gol que estou falando. Só vou na área quando precisam, mas sempre importantes, até de cabeça já fiz pelo Vasco. Esse gol do Fluminense foi assim, quem ia pensar que o Zé Mário faria gol? Com Rivellino, Manfrini, PC Caju e Gil em campo. Eles não estavam fazendo e fui eu então.

Que lembranças incríveis Zé Mário, o biênio 75-76 mudou tudo, foi o auge para o Fluminense. 

Z.M – O Fluminense sempre teve times aguerridos, falo isso como torcedor, mas aquele time como de 75 nunca houve.

Fonte: Pinterest Sandro Gomes.

É verdade! Muito obrigado Zé Mário, por me atender desse jeito. Zé Roberto me avisou que você me atenderia dessa forma.

Z.M – Ele é meu amigo, por isso fala bem de mim (risos). Nada, pra mim é um prazer.