Entrevista Procópio Cardoso

Entrevista com o capitão da equipe do Fluminense entre 1963 e 1965. Grande zagueiro de Salinas-MG, Procópio conta sobre seu começo no futebol, excursões do Fluminense na Europa, e oferece um panorama único sobre a década de 60 no clube.

Fonte: Acervo do jogador.

P. C – Pode começar.

Procópio, primeiro de tudo, muito obrigado por me atender desse jeito.

P. C – Estou aqui, e com minha camisa tricolor do Fluminense, número 3 – Procópio. Quando o Fluminense jogava de branco, apesar do calor do Rio, a tricolor eu punha por baixo. Não abria mão da tricolor não (risos).

E Procópio, como foi sua chegada ao Fluminense?

P. C – Foi uma chegada inusitada, porque comecei em BH no Cruzeiro, em 59 campeão, 60 campeão, 61 fui vendido ao São Paulo. E lá, eu disputei 61 jogos, seu Manoel Raimundo me vendeu ao Atlético MG para que eu casasse. O Cruzeiro ia ser tetra, mas o Atlético foi campeão. Muitos jogadores bons da época, aí formou-se a seleção mineira, no fim de 62. Acabou o campeonato mineiro, e teve o campeonato brasileiro de seleções: paulista, carioca, mineira e pernambucana. E eu fui, tinha que voltar pro São Paulo, mas como teve a convocação, foi adiada minha volta. Então nós jogamos por Minas Gerais e felizmente eliminamos aquelas seleções mais fracas e chegamos a semifinal, Minas e São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul, muito forte. O Minas ganhou do São Paulo lá e ganhamos na volta também. O Rio eliminou os gaúchos. Dalí fomos para a final, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o primeiro jogo foi aqui em Belo Horizonte no Independência, nós ganhamos de 1×0, um jogo muito duro, difícil, disputado sabe? Até mais do que a média, porque Minas Gerais sempre perdia pro Rio, e dessa vez as coisas não foram muito boas pros Cariocas. Ganhamos em BH e dali fomos pro Maracanã jogar a final 1 semana depois. Então o Botafogo, através de Seu Canoa Simões Coelho, um jornalista mineiro que morava no Rio de Janeiro, representava o Botafogo aqui em Minas, me procurou dizendo que o Botafogo se interessava em comprar meu passe. Fiquei muito feliz, porque o maior ídolo que tive na minha vida foi Nilton Santos. Então, você imagina minha felicidade, ele era o expoente máximo, do lado de Garrincha, Didi, Paulinho Valentim, Quarentinha, Amarildo, etc… Bom, fomos pro jogo, um Maracanã lotado, e Minas Gerais venceu. Vencemos novamente. O jogo teve uma disputa regional, uma disputa valendo título, Minas Gerais nunca tinha chegado a tanto. Ganhamos o título e eu era o capitão, então fui convidado a subir às tribunas lá em cima, fui de calção e uniformizado, tinha acabado de acabar o jogo, eu transpirava muito ainda, recebi das mãos de João Havelange, então presidente da CBF, a taça de campeão brasileiro. Com muita honra recebi a taça, assim que eu a recebi, o senhor Ibrahim Pepe, ou Abrahim Pepé, não me lembro ao certo, me procurou e disse que o Fluminense acabara de comprar meu passe junto ao São Paulo. Eu fiquei surpreso, porque havia essa sondagem do Botafogo. Nós estávamos hospedados lá nas Paineiras, de manhã cedo eu pedi pra chefia da delegação mineira que me ausentasse, talvez não viesse pro almoço, porque estava marcado às 11h nas laranjeiras. Tinha havido durante o jogo várias escaramuças com jogadores, Jair Marinho que pertencia ao Fluminense, Altair também, mas eu fui diretamente às Laranjeiras, havia senhores me esperando: Wilson Xavier e o presidente Nelson Vaz Moreira, os dois trabalhavam em bancos, eram homens espetaculares. Você conhece Laranjeiras bem hoje, mas naquele tempo não era qualquer um que entrava. Aquilo era um sonho, você adentrar o Fluminense era o sonho. Cheguei de táxi, falei com o porteiro: “Estou sendo esperado aqui para uma reunião”, me perguntou meu nome e me mandou pra sala da presidência. Seu Nelson Vaz Moreira e Seu Wilson, e Nassir Nassaf, outro diretor. Eu estava alegre, mas surpreso. Discutimos o contrato mas muito rápido, porque me fizeram uma oferta muito boa, e muito maior que a do São Paulo. Aquilo era Hollywood, uma coisa espetacular, lindo.

Sabe que quem construiu as Laranjeiras foi a família Guinle, a mesma do Parque Guinle, Copacabana Palace, Palácio Guanabara.

P. C – O Fluminense pela organização, pela lisura das pessoas, dos funcionários ao presidente. Era um sonho. Então eu cheguei no Fluminense, conversamos muito rápido porque eu tinha que voltar para Minas Gerais, havia uma festa esperando os mineiros. Assinei um contrato de 2 anos com o Fluminense, me deram 10 dias de prazo para reapresentar. Eu voltei para Minas para casar, e como teve a seleção mineira, a própria federação me pediu para adiar o casório. O irmão da minha esposa, era o zagueiro do Atlético comigo e da seleção, o William, houve um entendimento muito rápido das famílias e adiamos para depois da seleção. Quando eu cheguei lá e disse que o Fluminense tinha comprado meu passe e que nós tínhamos uma excursão de 15 dias pro Nordeste e depois viajaríamos para Europa 45 dias, não havia alternativa senão adiar para Dezembro. Voltando pro Rio, no começo, morei na concentração na rua das Laranjeiras, fiquei lá uns tempos muito bons. Fizemos essa espetacular excursão ao Nordeste e fomos diretos para Europa. 45 dias invictos na Europa. Fomos a França, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Noruega, e por fim Rússia e outras 5 repúblicas soviéticas. Ucrânia, Armênia, e várias outras. Imagina, jogar ao lado de Castilho, Carlos Alberto Torres começando, um espetáculo que você não pode imaginar. Um físico privilegiado, uma técnica apurada, e taticamente muito obediente. Os técnicos queriam que ele não fosse tanto, mas eu, capitão, dizia pra ele ir: “Você tem que ir, você sabe jogar, joga sim!”, todo mundo sabe quem foi Carlos Alberto Torres. Do outro lado tinha Altair Gomes, magrinho. Sem falar do Carlos Castilho, o maior goleiro que eu vi na minha vida e um homem extraordinário. Joaquinzinho que tinha vindo do Corinthians, Rodrigo, que Nelson Rodrigues chamava de Elcyd, el campeador. Escurinho, meu conterrâneo e amigo, Hilton Oliveira que também tinha ido do Cruzeiro para o Fluminense. Tínhamos um time excelente, também Amoroso, Luiz Henrique, um elenco fantástico. O Fluminense tinha uma base fantástica que todo ano revelava 3, 4, 5 jogadores. A excursão nos deu uma condição e moral muito boa, chegamos e já fomos direto para o campeonato Carioca, duro e decidido no final. Até hoje eu tenho guardado o Fla x Flu com recorde de público, para mim o Maracanã tinha mais de 220.000 pessoas. Nunca tinha visto tão cheio, foi um 0x0 que beneficiou o Flamengo. Fomos vice e no ano seguinte, de 64, fomos campeões, com a mesma base de time.

Eu joguei em vários clubes no Brasil: Atlético, Cruzeiro, Renascença, onde comecei, São Paulo e na primeira academia do Palmeiras. Lá tinha Dudu, Ademir da Guia, Julinho, Djalma Santos, Djalma Dias, Zé Filho, Tupã, Rinaldo, uma verdadeira academia. No São Paulo joguei com, De Sordi, Jair da Rosa Pinto, Orlando, Bené, Canhoteiro, Maurinho. Tive o privilégio de ter clubes e jogadores fantásticos. O Fluminense foi o clube que mais me marcou, o próprio hino do Fluminense já fala, é muito claro quando diz o que é o clube: “Fascina pela sua lisura, firmeza, disciplina”, o Fluminense foi uma coisa fantástica na minha vida, ter sido honrado, eu com 23 anos, chegar no clube e ser escolhido para ser capitão nesse elenco de Castilho, Altair, Joaquinzinho, Jair Marinho, Rodrigo, Manoel, Maurinho, Escurinho, e os jovens que surgiram na época: Iris, Evaldo, Luiz Henrique, Gilson Nunes, Edinho e tantos outros que apareceram e jogaram. Eu não vi clube nenhum na minha vida, nenhum como o Fluminense. Para você ter uma ideia, ninguém chegava pro treinamento, ninguém pegava material pra trocar de roupa, você tinha que primeiro passar no departamento médico. Tinha 6, 7, 8 médicos à disposição para atender os atletas. Só então você recebia um passe para pegar o material de treino, o clube se preocupava com aquilo que o atleta mais precisa, sua saúde. Ninguém recebia no Fluminense, nesse meu tempo, no dia 30, ou 5, ou 10, era sempre dia 23 do mês que ia vencer ainda, você jogava domingo, segunda-feira 7h da manhã você podia passar no caixa do Fluminense e Seu Bran, que jogou no Fluminense e no Atlético e era tesoureiro, você poderia pegar sua gratificação, ou luvas, ou bicho. Não precisava falar com dirigente, presidente, era só passar com Seu Bran e pegar em cash. Outra coisa, antes dos jogos, os médicos iam checar o pulso basal, poderia até estar dormindo, mas se checava e poderia voltar a dormir, pra ver se estava tudo ok pro jogo de tarde ou noite. Quer dizer, uma organização fantástica, eu tenho muito prazer e honra de falar isso. Esse foi o Fluminense que eu conheci.

Que depoimento lindíssimo você deu, Procópio, que retrato.

P. C – E todos os jogadores sabem dessa verdade, todos que estiveram lá sabem disso. Isso não é conto da carochinha. O Fluminense se preocupava com os funcionários e o jogador é funcionário. Não havia diferença entre jogador e roupeiro, o tratamento era igual a todos. Esse clube foi uma coisa fantástica, estou com a camisa do Fluminense na minha mão, com o número 3 escrito Procópio, já lhe disse, essa eu usava por baixo da branca (risos). Meu celular, o retrato sou eu e Castilho entrando em campo no Maracanã, e o toque é o hino do Fluminense, “Fascina pela sua disciplina”. Alguém que está lendo pode achar que estou exagerando, mas quem viveu aquela época… O Fluminense era um primor.

E Procópio, você lembra qual foi sua partida mais inesquecível com o Fluminense? Sua melhor exibição? 

P. C – Deixando de lado qualquer sentimento de modéstia, qualquer partida era disputada com ardor. Mas a excursão à Europa logo quando cheguei. Nesse dia tomamos um café com o presidente e o vice (Nelson Vaz Moreira e Wilson Xavier), todos perfilados à frente depois do Café que estava marcado às 8h, nosso voo era às 11h, íamos de Laranjeiras para o Galeão. Todos sabíamos os regulamentos do Fluminense, mas para que não houvesse dúvida recebemos um folhetim, naquele momento ali me emocionei. Eu falei para você, me via do lado do Castilho, o maior goleiro que eu vi na minha vida e um amigo que você não pode imaginar, e um parênteses: não acredito na história final… não acredito.

No seu fim de vida?

P. C – Não acredito que ele tenha… colocado final. Enfim, o presidente reuniu todo mundo e disse que a partir daquele momento o capitão era esse mineiro que está falando com você. Minhas pernas tremeram. A responsabilidade de um menino de 23 anos. Uma responsabilidade que você não pode imaginar. E sabe qual foi a primeira missão que recebi logo depois? Isso tem que ser dito, era um espírito de solidariedade entre amigos. Assim que terminou o café da manhã, a esposa de Rodrigo (centroavante), que era um homem valente, destemido, mas com uma cabeça que não era… Não que fosse louco, mas gostava de uma farrinha, não ligava pra dinheiro, só gastava. Sua esposa, me lembro perfeitamente, me chamou e junto com uma diretora do Fluminense, Dona Marinete. Minha primeira missão como capitão, ela estava grávida de sua quarta filha, para que tomasse conta do dinheiro que Rodrigo ganhasse na Europa. O Fluminense pagava, na época, 20 dólares por dia, olhe bem, e 200 dólares por vitória. Também, 1000 dólares por prêmio de campeonatos e torneios, para quem fosse ficar 45 dias na Europa era um bom dinheiro. Ela estava com medo que Rodrigo jogasse fora e não guardasse nada pro nascimento da filha. Estamos conversando aqui uma conversa muito reservada, mas não há porque não contar. Não tinha como eu guardar o dinheiro, a não ser que ele me autorizasse receber por ele, e por isso mesmo ela estava ali, já estava tudo acordado. Ele era bonachão, uma pessoa espetacular, me disse que podia pagar: “Só me dá um dinheirinho pra eu ter um troco no bolso”. A excursão inteira eu dava 10% da diária e guardava o resto pra ele (risos), eu trouxe na época mais de 5.000 dólares. Quando nasceu, a mulher me agradeceu muito. Ele era de uma simpatia, de uma alegria, sempre rindo, nunca questionava nada. Na Suécia, e olha que a língua é incompreensível, ele conseguia fazer amizade com qualquer dono de botequim. Ele foi vendido para Europa depois, era um centroavante destemido. Eu tive muita honra de jogar nesse clube, e mais ainda de treiná-lo, em 89 fui treinador do clube. Foi quando surgiu o Alexandre Torres, Luiz Henrique, vários jogadores fantásticos.

Nessa excursão à Europa, como foi sua experiência na União Soviética?

P. C – Ficamos invictos a excursão toda. Ainda estava sendo eleito, em Roma, o Papa Paulo VI. João XXIII tinha morrido quando nós estávamos na União Soviética. Da Suécia nós fomos de navio pra Finlândia, jogamos lá, na Noruega, Dinamarca, e pegamos um trem para Moscou. Teve um dia que choramos todos, você é muito jovem e não sabe, mas naquela época a Guerra Fria era muito temida, e a Rússia estava vivendo aquele momento difícil com o Comunismo. Stalin caiu em desgraça, já não se falava nele, agora era o Khrushchov, tanto que mudaram o nome de Stalingrado para Volgograd por causa do rio, local onde os russos enfrentaram os nazistas e os seguraram. Tivemos uma viagem cansativa, quando estávamos na estação de trem na Noruega à caminho de Moscou, o embaixador do Brasil de lá nos trouxe um caminhão com 20 e tantas caixas, ficamos bobos com isso, ele nos disse que lembraríamos dele lá em Moscou, uma caixa pra cada um, cheia de chocolates fantásticos. Na época, jogadores do Flamengo já tinham falado sobre isso, passava-se fome, a Rússia vivia um drama político. Uma viagem longa, longa, longa, na fronteira da Finlândia com Rússia, 2 jogadores do Fluminense ficaram presos, Luiz Henrique e Hilton Oliveira, porque eles tinham sido emprestados pelo Flamengo, que também estava na Europa, o empresário era o mesmo, Borges Lunds, então o Fluminense gentilmente emprestou 2 jogadores. No dia de fazer o visto para entrar em Moscou, esses dois estavam com o Flamengo na França, quando chegamos então na fronteira, eles ficaram presos, não passavam. Nós ficamos loucos, era apavorante as notícias que se tinha da Rússia, e eles presos sem saber de nada. Nosso chefe de delegação teve um problema de coração e teve que voltar ao Brasil, aí uma pessoa que você do Rio de Janeiro deve conhecer bem assumiu a delegação: Benjamin Wright, pai de José Roberto Wright, o juiz. Ele era conselheiro do Fluminense e estava viajando como correspondente d’O Globo. Quando Adolfo Sherman teve um infarto, ele assumiu. Hilton e Luiz Henrique estavam presos ainda, Benjamin foi a embaixada, a qual quem comandava era o embaixador Vasco Leitão da Cunha, um homem solícito que tomou atitudes na hora, sendo que às 16h os dois chegaram no hotel, para alívio nosso. Tivemos uma excursão fantástica, o Fluminense estava invicto, o primeiro time que pegamos na Rússia era o Dínamos de Moscou, cujo goleiro era ninguém mais nem menos que Lev Yashin, o Aranha Negra. Foi o dia que vi dois monstros sagrados atuarem no mesmo nível, Yashin e Carlos José Castilho, meu querido amigo, naqueles dias dele que você não pode nem imaginar. Ganhamos do Dínamo perante 100.000 pessoas, com Khrushchov no estádio. Daí fomos jogar na Ucrânia, que era terra do Khrushchov, ganhamos lá, e voltamos pra Moscou. Fomos à Armênia, ganhamos lá também, foi onde comemos bem. O Fluminense nos disse que se ficássemos invictos poderíamos ficar 7 dias em Roma para descansar, sem treino só no hotel e passeando. Íamos já embora, mas Khrushchov bateu o pé que tínhamos de jogar contra a seleção russa, ninguém queria porque já estávamos invictos. 7 dias em Roma e o Papa sendo eleito… Mas não teve jeito, não íamos sair do país até jogarmos, marcaram pro dia seguinte, nós e Rússia. Bom, fomos pro jogo, e eu capitão, falei pra moçada pra não pensarem que é só gratificação não, lutávamos pela invencibilidade da excursão toda, e eu queria muito ver a eleição do Papa. Antes de ir pro campo, chegou um telegrama pro Fluminense através da embaixada do Brasil, Dr. Vasco Leitão da Cunha, endereçado para mim. O telegrama era do nosso querido e saudoso governador da Guanabara, Carlos Lacerda, melhor orador que vi na minha vida. O telegrama dizia que não era Fluminense x Rússia, era Brasil x Rússia. Uma mensagem dessas inflama qualquer um, foi o dia que eu lhe confesso, minhas lágrimas… Tocou o hino nacional e eu lembrei de Carlos Lacerda. Foi o jogo mais violento que eu vi na minha vida, você imagina. Só pra encurtar a conversa, no intervalo do jogo, Khrushchov mandou o Ministro dos Esportes no vestiário (risos). Nós tínhamos uma intérprete, Nina Teleskova, alguma coisa assim, falava muito bem o castelhano, Castilho entendia muito bem e eu um pouco também. No intervalo ela bateu na porta e falou para Benjamin Wright que o Ministro queria dar uma palavra. Ele simplesmente disse que Khrushchov estava lá em cima e estava decepcionado com a violência, que nós deveríamos tratar de jogar futebol. Eu, como capitão, então disse para ela que deveria ter ido primeiro no vestiário russo, ela me disse: “Estamos chegando de lá agora”, eu perguntei: “Mas falou as mesmas palavras?”, ela me confirmou. Eu disse: “Já que as coisas estão nesse nível, nós faremos o possível para que haja apenas futebol”. Na hora que ela saiu eu falei pra turma: “Não vamos acreditar nisso não, isso é conversa mole pra boi dormir, eles vão vir quente, e se arrefecermos, vamos perder a invencibilidade e nossos dias em Roma”. Mas o Fluminense é um time valente, sabe? Aí, nós voltamos pro segundo tempo e olha… O pau comeu de um jeito, eles não vieram manso não, vieram vestidos de cordeiro, mas eram lobos! Encontraram também uma matilha muito forte do outro lado, o Rodrigo era muito forte, o que ele bateu nesses caras… Carlos Alberto Torres, menino, mas forte também. Eu marcava um centroavante que tinha um metro e noventa e tanto, uma toupeira de forte. Castilho estava naqueles dias fantásticos que os tricolores conhecem, Yashin no gol deles pegando tudo também, Joaquinzinho chutava muito forte mas… Para encurtar a conversa, acabou 0x0. Sabe qual foi minha surpresa quando o juiz apitou o jogo?

Gol do Flu! Fluminense x Allianssi, Finlândia, 1963. Vídeo disponível em: https://areena.yle.fi/1-50124076

Qual foi sua surpresa?

P. C – 100.00 pessoas aplaudiram a gente de pé, de pé! Os dois times, saímos juntos, fomos tomar um banho caprichado, o vestiário era muito bem decorado com poltronas grandes, uns 3 samovares grandes de chá quente, estava um frio danado. No outro dia entramos num avião que nunca tinha entrado na minha vida, achei que ia morrer, não era possível, não se via um palmo na frente, tudo neblina, levantando da pista e ele empinou. Mas já subimos e estávamos em cima das nuvens, vimos o sol, logo descemos em Praga, na Tchecoslováquia, para abastecer. Dali fomos para Roma, o Fluminense nos deu tudo que havia prometido, e mais alguma coisa, porque nós fomos tratados de uma maneira que você não pode imaginar. Eu e Castilho íamos todo dia cedinho para o Vaticano, porque estava sendo eleito o Papa, no primeiro dia, fumacinha negra, até que no nosso quarto dia, teve a fumaça branca: “Habemus Papa”, Paulo VI. Eu estava com Castilho e Seu Antoninho, o técnico do Fluminense. Os jogadores, em grande maioria, como o Fluminense deu 7 dias de folga, foram pra Capri, outros pra não sei aonde, com dinheiro no bolso, invictos e com permissão.

Procópio, Castilho, Antoninho na Fontana di Trevi. Fonte: Acervo do jogador.

Que história sensacional Procópio! Que privilégio ouvir relatos e exemplos de quem foi testemunha e protagonista da história do clube.

P. C – E para nos agradar, os Russos ainda nos deram uma pequena miniatura do Sputnikzinho que o Gagarin tinha ido ao espaço! Quando estávamos lá, foi a primeira mulher, Valentina Tereshkova, ao espaço. Nós vimos na televisão do hotel. Foi uma viagem fantástica, não só pelos resultados, mas o Fluminense desta época, e não quero diminuir nenhum outro clube, era um exemplo, nós sabíamos onde estávamos e o que representávamos.

Isso foi em 63, depois você foi campeão do Torneio de Kiev em 89 como treinador do Fluminense, certo? 

P. C – Um dos maiores títulos que ganhei, esse e o do Atlético em Amsterdã. Jogamos a final justamente contra a grande Roma da época, campeã italiana, um dos maiores times do mundo. E o pior de tudo você não sabe, foi logo após Chernobyl (risos), o medo da contaminação era terrível. Fomos de avião de Roma para Kiev. O Fluminense, nós pegamos carona na alimentação dos italianos, ficamos no mesmo hotel, eles levaram uma equipe de cozinheiros e toneladas de macarrão, comíamos sempre um macarrão italiano bem feito. Tive o privilégio de conversar muito com o Didi nessa excursão, ele era técnico do Bangu, que eliminamos no torneio. 

Didi folha-seca?

P. C – Era técnico do Bangu, e era tricolor. Eu ficava conversando com ele após as refeições, lembrando esses casos e coisas fantásticas. Conversar com Didi, Castilho, Orlando Pingo de Ouro, o próprio Carlyle que jogou no Fluminense era meu primo. Carlyle Guimarães Cardoso. O Fluminense foi uma coisa na minha vida que você não pode imaginar, tem uma música que fala: “Um rio que passou em minha vida”.

E Procópio, vi uma foto hoje muito interessante, você em seu casório com um grande hematoma no rosto. Em qual partida ganhou isso?

P. C – Sim, foi o Fla x Flu de 63, o do recorde de público no mundo, o maior público da história. Aos 7 minutos do primeiro tempo com um escanteio contra o Fluminense, do lado esquerdo de nossa defesa. Eu subi, e o segredo do zagueiro é ver a bola sair, te dou um exemplo claro disso: Se eu te jogar uma pedra, você tem que ver meu braço pra ver onde a pedra vai. Eu preocupado em ver a bola, Airton, centroavante do Flamengo que não teve culpa nenhuma coitado, me fez uma fratura num osso debaixo do olho. Eu cabeceei a bola e ele me cabeceou no rosto, sem maldade nenhuma. Naquele tempo podia jogar sangrando, só no intervalo me deram uns pontos, naquela época não podia trocar ninguém, eu continuei o jogo todo. Pagaram ingresso 187.000 pessoas. 

Então, certamente havia muito mais. E Procópio, como foi seu começo no futebol?

P. C – E tem um conto que precisa ser contado, um conto não, um fato. O maior ídolo que tive na minha vida chamava-se Nilton Santos. Quando eu comecei a jogar futebol, eu era meia, ponta de lança do juvenil do Renascença. E antes disso, jogava no Botafogo um zagueiro mineiro junto com Nilton Santos, chamado Gerson Santos. Começou no Cruzeiro e quando se aposentou veio ser técnico do Renascença, clube que eu era juvenil. Um clube aqui de Belo Horizonte, um clube da fábrica de tecidos, só vi material igual de bom no Fluminense. O dia que Gerson Santos foi apresentado era 7 de setembro de 58. Naquela época, fique sabendo, era praxe e obrigação você ir ver a parada do 7 de setembro, o brasileiro de coração nato deve-se orgulhar de seu hino e pátria. Eu ia sempre, no norte de Minas sempre íamos, mas nesse dia seria apresentado o Gerson. Então faltei a parada, cometi esse pequeno equívoco, não tinha ninguém no Estádio, só eu e o treinador Seu Vicente. O treino não começava, faltavam 2 jogadores, o Gerson veio conversar com Seu Vicente, que era um homem rude, mas de um coração que você não pode imaginar, ele era tecelão, trabalhava na fábrica. Me pediu para completar o treino, e como o roupeiro, Cristiano, era o mesmo do profissional e juvenil, meu material estava na mão. Só que, como faltavam 2 zagueiros, Gerson treinou de beck central, e eu de quarto zagueiro. Quero que você entenda, e não é para me vangloriar, foi a primeira e última vez que treinei como zagueiro reserva, isso foi numa terça-feira, na quinta-feira treinei no time titular e pronto, minha carreira começou, 3 meses depois o Cruzeiro me contratou. Sempre tive carinho pelo Botafogo, e no Rio de Janeiro fiquei muito amigo do Nilton Santos por causa do Castilho. Fomos nós três ao escritório do Carlos Lacerda, que nos recebeu muito bem e sancionou na hora, para aprovar a criação da FUGAP no Rio de Janeiro. Fui como capitão do Fluminense e guardo no meu coração tudo que vivi lá. Era um sonho, sabe o que é um sonho? 

Mas eu tive um problema seríssimo em Laranjeiras, eu falei pra você, vim para Belo Horizonte estudar, me formei em Direito e Educação Física. Era sócio do Minas Tênis Clube, aliás ainda sou sócio, e na época havia um convênio entre o Minas e o Fluminense. Dois clubes sociais e tradicionais, e quem era sócio do Minas podia frequentar o Fluminense e vice-versa. Eu era solteiro ainda e morava na concentração num casarão em Laranjeiras, porque eu ia casar só em dezembro. Eu acompanhava meus amigos que eram sócios do Fluminense, e as noites tinha a Hora Dançante na piscina, eu não me atrevia a ir nos bailes, mas na piscina, como sócio do Minas, eu podia frequentar. Mas eu sabia meu lugar, eu não ia para dançar, me exibir. Eu ficava na mesa com meus amigos, conversando, nem beber eu bebia, havia moças que conhecemos para bater papo. Aí começou a surgir aquele zumzumzum, o Fluminense era aristocrático mesmo, então ter atleta do Fluminense frequentando a Hora Dançante na beira da piscina… Até que um belo dia, a Dona Marinete, uma funcionária, uma diretora do clube, de uma classe, me chamou na sala dela depois do treino. Eu pensei que eram coisas ligadas ao futebol, mas ela muito gentilmente me pediu que, embora houvesse o convênio, que eu esquecesse aquilo ali, porque eu era jogador de futebol. Mas delicadamente ela pediu, eu entendi perfeitamente, nunca mais apareci nem participei.

O Fluminense deveria dar esse espaço. Está errado, não custava nada eu acho, Procópio.

P. C – Mas eu entendi perfeitamente, eu entendi muito bem.

E você ficou no Rio quantos anos?

P. C – Eu fiquei pouco tempo no Fluminense, o clube era muito organizado financeiramente, e quando precisava de dinheiro vendia-se jogadores. Em 65 o clube estava com problemas de caixa, vendeu Carlos Alberto Torres para o Santos, e eu para o Palmeiras. 

Mas no Fluminense você se casou, inclusive li que Nelson Rodrigues foi seu padrinho de casamento, certo?

P. C – Isso, foi meu padrinho, mas como não viajava de avião, ele foi representado por Argeu Affonso, um jornalista d’O Globo que cobria o Fluminense. Nelson Rodrigues me deu a gravata do religioso, e seu sobrinho Mário Júlio Rodrigues me deu a gravata do civíl. O Fluminense me deu uma lua-de-mel em Friburgo, e para minha esposa, deu um conjunto de brilhantes espetacular. 

É muito emocionante a forma carinhosa que você fala do Fluminense. 

P. C – Para você ter uma ideia, quando eu cheguei no clube eu não tinha carro, não tinha nada. O Castilho, que me chamava de Zé eu não sei porquê, acho que por causa de Zezé Procópio, jogador antigo, me pedia para ficar com ele treinando chutes, não existiam treinadores de goleiro de forma alguma. O preparador físico cruzava com a mão porque não sabia bater na bola, o Castilho pedia pra eu ir no corpo dele pra sentir o baque e não soltar a bola. Você imagina, o jogador com todos os métodos e aparelhos de hoje… Já imaginou, um Gilmar, Castilho, Vitor Gonzalez, Veludo?

E o que sua família achou de sua vinda para o Rio de Janeiro?

P. C – Olha, na realidade, vou lhe contar uma coisa. Ao perder meu pai, que era um promotor público, assassinado em Salinas em praça pública pelas costas, eu tinha 9 anos, meu avô me mandou para Belo Horizonte estudar em internato, para fugir daquele trauma. Esse meu avô de quem eu tenho orgulho de ter o nome, era índio. Foi um homem que se fez, e formou todos os filhos.

Sinto muito em ouvir isso Procópio…

P. C – Eu tinha quase 10 anos de idade, fiquei 7 anos no internato do Colégio Batista, eu, só no segundo ano do científico, fui estudar externo. Ali comecei a jogar futebol, de atacante, com 13 anos o Atlético foi jogar contra um time de garotos do Batista e nós batemos eles fácil. Então ali me chamaram para jogar, eu saía domingo do colégio, eu ia e voltava a pé, andava 5km para jogar. Depois fui pro Renascença, fui artilheiro do campeonato mineiro por dois anos, até que minha vida mudou naquele episódio que contei para você no Renascença. Conheci muito o Orlando Pingo de Ouro nessa época em Belo Horizonte, ele jogava no Atlético, e depois no Fluminense fiquei muito amigo dele. Ele era espetacular, fazia gol de tudo que era jeito, de bicicleta inclusive! Fiquei muito amigo também de Píndaro, que havia jogado antes, o Fluminense tinha uma turma muito boa. E teve uma família, Dona Babê e Doutor Sérgio, que ajudava os meninos das categorias de base, e como eles viram que eu era sozinho lá, eu ia muito na casa deles visitar, conversar, eram pessoas fantásticas, nunca me senti só no Fluminense.

Que fantástico Procópio, estou impressionado em ouvir tantas histórias de um período tão importante do clube.

P. C – E o que o clube foi importante na minha vida! Essa é a questão.

Para a gente ir finalizando Procópio, não quero te alugar todo o dia, eu sei que tem muito mais histórias…

P. C – Não, meu filho e quando quiser é só ligar!

Vamos ter que fazer outras!

P. C – Não chegamos nem no primeiro tempo (risos). Estou aqui à disposição.

Foi somente para abrir os trabalhos!

P. C – Você acredita em Deus? Lembre de mim em suas orações que eu lembrarei de você nas minhas. Não deixe de ouvir nunca o hino do Fluminense.

Então vamos nos falando Procópio.

P. C – Um abraço para você e para todos, estou à disposição e as ordens.