Entrevista Cláudio Adão

Entrevista com Cláudio Adão, ídolo no Fluminense por sua campanha artilheira em 1980. Desde suas impressões sobre o futebol atual, a final de 85 jogada pelo Bangu, sua relação com Castor de Andrade e o entrosamento do time de 80.

Fonte: Revista do Fluminense, 1981.

Adão, como você chega ao Fluminense?

C.A – Foi assim, do Flamengo fui pro Botafogo, e no Botafogo estava há uma data sem receber pagamento. Atrasaram 7 meses, e aí não me lembro quem me ligou do Fluminense, conversamos, foi rápido. O treinador era o Zagallo na época, mas ele não quis ficar no clube, o time era muito garoto: Delei, Edevaldo, Tadeu, Edinho era um dos mais velhos mas também garoto, Paulo Goulart, Rubens Galaxe. Tinha um time jovem, mas interessante. E isso me chamou atenção, logo no final do Carioca de 80 que ganhamos, o Zagallo ficou arrependido, brincávamos com ele, estava com o time na mão. 

Aquele time tinha só dois jogadores que não eram formados na base, como era a relação com esse pessoal que era todo de casa? O entrosamento.

C.A – O entrosamento era ótimo. O Edinho jogou comigo seleção brasileira desde os 15 anos de idade, temos a mesma idade, então já o conhecia, e ele sendo o jogador e pessoa que foi o entrosamento foi mais rápido. Na época ele me apresentou a todos, fizemos um grupo maravilhoso, eu, Edinho e Rubens os mais velhos. O entrosamento era muito legal, e o time passou por cima de todo mundo no Carioca. O Flamengo tinha um timaço, o mesmo que foi campeão do mundo, demos a volta por cima e ninguém acreditava no time do Fluminense.

Fonte: Site Fluminense.

Entrevistei o Rubens essa semana, ele afirma que esse é o time com mais coração que ele jogou, seu time favorito, e ele era da época da Máquina. A camisa era uma coisa espetacular, a branca era linda!

C.A – A camisa branca e a música do Papa, juntou tudo. A benção João de Deus foi em 80 que começou. Aí cara, a hora que a torcida começava a cantar essa música dava uma energia pura em todos os atletas dentro do campo e conseguimos ganhar. Tanto que teve um jogo contra o Vasco que tínhamos que ganhar de 3 para classificar, e ganhamos de 3×0 logo no primeiro tempo.

Fonte: Revista Placar.

Sua passagem pelo clube foi muito marcante, você estreou contra o Serrano com um hat-trick, 3 gols logo na primeira partida. Como foi essa sua estréia?

C.A – Foi lá na serra, o centroavante tem que fazer gol né (risos). Fui feliz demais de ir muito bem nesse primeiro jogo do campeonato, aquilo marcou muito. Ajudou muito para o seguimento, aquela primeira presença. Fui indo, e fazendo gols em todo mundo, fui artilheiro e campeão esse ano.

Vi um VT de um jogo contra o Botafogo, 4×0, você fez 2 gols, o primeiro foi espetacular! Edevaldo cruzou para o Robertinho ajeitar de calcanhar, e você mata no canto. Uma loucura, um golaço. Lembra de um gol especial que tenha te marcado?

Fonte: Panorama Tricolor.

C.A – O que mais me marcou foi o time, não um gol específico, mais ainda a forma que foi formado o grupo de garotos. Foi assim, estava no Flamengo tricampeão, e quando cheguei no Botafogo vi que não deveria ter saído do Flamengo. Aí, quando fui pro Fluminense, a alegria voltou toda e geral, o Fluminense é um clube muito legal, um clube que revelou muitos jogadores pro futebol brasileiro. Tive que mostrar alguma coisa, estava muito bem e alegre lá.

Você foi artilheiro com 20 gols em 80, mas em 81 você fez 36 gols. Umas das maiores médias de um atacante pelo Fluminense, 56 gols em 67 partidas. E por que você partiu tão cedo? Por que foi uma passagem breve?

C.A – É aquele negócio, eu estava no Fluminense, e o clube na época estava com dificuldade financeira, num período de mais de 3 meses. Aí quando meu contrato acabou recebi uma proposta do Vasco, uma proposta muito maior. Mas o Fluminense foi um time que adorei muito, uma paixão total pela torcida e pelo time.

Você teve também passagens incríveis pelo Vasco, Botafogo, Flamengo, mas também pela quinta potência, que era o Bangu de 85. O que você pode dizer dessa passagem pelo Bangu?

C.A –  É engraçado você me perguntar, eu estava no Vasco da Gama, e o Castor me encontrou e perguntou se eu queria jogar lá. Falei que tinha contrato ainda com o Vasco e quem estava é o Eurico, tinha que acertar com ele pra ver como fica. Eu falei pra ele, não tenho problema de jogar no Bangu, perguntei se ele tava formando um bom time, ele me disse que ia contratar Paulinho Criciúma. Ia ter um time que eu conhecia, falei que se o time ficar bom eu topo, com a condição dele ir falar com o Eurico. Fiquei surpreso que a noite ele bateu lá na minha casa: “Ó, já acertei tudo com Eurico, segunda-feira você se apresenta lá em Bangu”. Falei pra ele: “Doutor, não é assim não, temos que conversar…”, acertamos tudo rápido e fui pra lá. Aí, teve a final de 85 contra o Fluminense, que o Wright não deu um pênalti (risos).

Aquela final é contenciosa hein, tem muito debate. O que você pode dizer daquele pênalti? 

C.A – Foi um pênalti claríssimo. O Wright falou que tinha acabado o jogo, mentira. Era o Vica. Dei um chapeu nele de peito, e ele trombou comigo dentro da área. Wright tava mal colocado pra burro. É incrível, aí o Marinho meteu a bola do lado dele, se ele tivesse apitado todo mundo ia ouvir. Dominei no peito e o Vica me agarrou e jogou pro alto. Mas seguimos, ainda brinquei com Paulo Victor: “Se é pênalti você não pega, porque te conheço (risos)”.

Inclusive, a camisa do Bangu era linda nessa época, e ainda tinha um castorzinho bordado, lembra disso?

C.A – Tinha um bonequinho preto, um castorzinho. O Castor, depois que ele morreu, o Bangu morreu. Mas ele era uma pessoa maravilhosa, uma pessoa que tratava todo mundo bem, pelo menos ali no clube e no estádio. Ele chegava, comprimentava todo mundo. “Quarta-feira, quanto que vai ser o bicho doutor?” – Ele fazia bicho até no coletivo, botava a gente pra jogar. Aí os reservas não queriam perder, quem ganhava levava o bicho. Um dia chamei ele e falei que ele estava fazendo uma guerra em campo, falei que tinha que dividir o bicho entre os dois, ele ria.

O estádio de Moça Bonita é lindíssimo também, fui num jogo lá logo antes da pandemia, é lindo demais, só estava um dia quente demais.

C.A – Bangu é quente, faz de 35 a 40 graus. Mas foi legal essa passagem do Bangu, tenho recordações ótimas lá de Moça Bonita. Foi uma coisa que me deixou contente, eu treinava muito e dava muita sorte. Fui artilheiro também no Bangu, do Campeonato Carioca.

E diga, quais suas impressões do futebol atual? Tem acompanhado o Fluminense? 

C.A – Tenho visto muito de vez em quando, sendo sincero. O futebol tá muito feio, você vai no maracanã e não vê nada, todos erram pra cacete, acabaram com o centroavante fixo. Está em falta, número 10 não temos mais, pontas hoje em dia são corredores, tendo que correr atrás de laterais. Tem que jogar bola. Eu acho que o futebol caiu muito, vamos demorar mais uns 20 anos pra ganhar uma Copa do Mundo.

Por isso que gosto tanto de VT (risos). A técnica era muito diferenciada, tínhamos o prazer de ter os melhores atletas, hoje só exportamos pra fora. Um medo é eu nunca mais ver alguém crescer pra ser ídolo no Fluminense.

C.A – O futebol virou um comércio, os garotos saem com 13, 14 anos. Não se fazem mais jogadores para crescerem e serem craques para a torcida. O futebol brasileiro, todos os clubes, deveriam virar empresa. Para voltar a crescer e valorizar os jogadores do clube, aqueles feitos na casa, hoje não estão nem aí.

Realmente o debate da SAF ainda vai dar muito pano pra manga, principalmente nos próximos anos. Vamos acompanhar o que vai acontecer com esses clubes, como o Botafogo. Estão servindo quase como experimento para os outros.

C.A – Acho que tem tudo para ficar forte. Você vê o Flamengo, pegou o Bandeira que foi uma pessoa séria, arrumou o clube, o Flamengo está hoje aí uma potência. Vamos ter que ver se vão conseguir manter isso. O Botafogo que tem agora esse americano, está investindo, mas o Botafogo ainda não fez time. Para disputar o Brasileiro, se não investir, vão cair outra vez. O Fluminense fez um time melhor agora nesse ano, tem um time que apresentou contra o Flamengo um futebol forte e guerreiro, só não sabemos o andar da carruagem quando começarem os campeonatos. O Vasco tá na segunda e não subiu, e vai ser difícil voltar, vai demorar.

Ao mesmo tempo você vê os clubes vendendo seus ativos sempre, no Vasco, o Thalles Magno por exemplo, o clube precisa vender seus ativos para se manter e perde em qualidade.

C.A – Justamente, as peças que poderiam ser os ídolos do clube, vendem ou mandam embora, estão muito endividados. Hoje quem é a estrela do Vasco é o Nenê, com 40 anos, isso é um absurdo. Poderia estar como uma estrela no elenco, mas não ser o melhor. Os jovens eles vendem para fora…

Adão muito obrigado por me atender dessa forma, não vou te prender o dia todo, te agradeço por contar suas lembranças do Fluminense. Muito obrigado!

C.A – Tamo junto, quando quiser é só falar. Um abraço.