Entrevista Rubens Galaxe

Entrevista com o grande craque Rubens Galaxe (ou Galaxie, como o carro), penta-campeão Carioca com o Fluminense, a década mais estrelada do clube: 71, 73, 75, 76, 80. Sexto jogador que mais atuou com a camisa do clube, com 463 partidas, sem nunca ter sido vaiado.

Lembrei de uma entrevista do Manfrini em que ele se emociona declarando amor ao Fluminense, diz que o uniforme tricolor clássico era bonito, mas maravilhoso mesmo era o branco. Às vezes eu penso o porquê de eu gostar tanto do Fluminense, não sei explicar.

R.G – Mas não dá, não dá para explicar, uma atração, uma empatia tremenda. Infelizmente as vezes tem umas caídas, o clube é aquilo dali, as cores você vai gostar eternamente. Mas há dias que você vai ter dor de cabeça, mau humor.

Olha, eu tinha separado umas perguntas aqui para fazer para você, posso fazê-las?

R.G – Claro, pode.

Você teve uma carreira que hoje não aconteceria, muito difícil você imaginar um jogador, hoje no Fluminense, crescer para ser ídolo. 

R.G – As pessoas estão sendo empurradas pelo dinheiro, a verdade é essa. 

Hoje Gabriel Teixeira foi vendido para os Emirados Árabes, o cara de 20 anos não tem oportunidade de fazer carreira no clube que o formou, o futebol sofre muito com isso. Ontem foi Metinho, Kayky, Marcos Paulo, João Pedro, Evanilson, Pitaluga e tantos outros. O Fluminense virou matriz exportadora, precisa vender jogadores para fechar as contas, não há mais possibilidades de ídolos com 400, 500 jogos.

R.G – O mercado não permite, isso vai ficar só na história mesmo, o mundo girou de uma tal maneira, e o futebol junto. É muito dinheiro circulando no futebol, você liga a televisão em canais esportivos, tem mais de 10. O futebol é o prato principal. O dinheiro é o carro chefe. Você é novinho não vai lembrar, mas a camisa do Fluminense era linda, sem uma porção de coisa estampada. 

As camisas mais lindas eram aquelas Athletas, clássicas dos anos 70!

R.G – Isso. E nunca se imaginaria que uma camisa como a do Fluminense ficaria assim. Tem camisa minha, até do juvenil, que está com minha filha lá na Austrália. Quando ela sai lá, vai de camisa do Fluminense, a tricolor inclusive, porque no juvenil não joguei com a camisa branca, só no profissional. É uma camisa limpa, aí está representado realmente o clube, suas cores, linda, linda, linda. Não é saudosismo nem nada, a realidade é essa.

O dinheiro manda até na identidade do clube. É difícil assim, como torcedores sofremos com isso.

R.G – Você é um torcedor diferente. Você é um torcedor, mas que ama o clube diferente de uns outros, entendeu? Como dizem, o Fluminense somos todos nós, mas tem uns que são mais tricolores, que tem um carinho e apreço diferente. 

Ouvir isso de você significa muito, de verdade.

R.G – A gente vive o Fluminense, essa convivência do dia a dia a gente aprende a distinguir. Mas enfim, algumas coisas realmente doem quando se vê o lado contrário. Eu pra mim, nunca imaginava que o Fluminense, o cara que torcesse pro Fluminense, torceria contra quando ele não estivesse na direção do clube. Isso quando eu era garoto, juvenil, eu jamais imaginaria. Eu jamais imaginaria que o torcedor xingaria o jogador, jamais imaginaria que ele fosse depredar, aqui é como se fosse uma família pra mim. Depois cai a realidade, quem tá de fora não imagina a selva que é. Mas é muito gratificante ter uma pessoa como você, um garoto, que gosta tanto do Fluminense e quer refletir através desse contato. É como eu via as coisas antes, dávamos tudo de nós, assim como os torcedores. Mas enfim, vamos seguindo, temos que ser realistas.

Temos que dar o máximo para cuidar da memória do clube… Eu ia lhe perguntar, você chegou no juvenil do Fluminense em 68? 

R.G – Eu cheguei no infanto-juvenil em 68, aliás eu cheguei com 15 anos e ainda fiquei 1 ano treinando, só treinando com Pinheiro na base, e depois de 69, que eu estava aclimatado, subi para o juvenil. Eu vim de Campos, do interior de Campos, imagina, com 15 anos, numa cidade. Morei numa concentração que tinha profissionais.

Onde era a concentração do Fluminense?

R.G – Era na Rua Alice, depois foi na Rua das Laranjeiras, do lado do instituto de surdos e mudos, era um casarão ali. Tinha jogadores para fazer testes, moravam profissionais também. Vi o Félix chegar, ali eu convivi Bauer, Oliveira, me lembro desse pessoal que morava lá. Isso eu guardo na memória, depois fomos pra Urca, dali fomos para Botafogo e enfim fui pro profissional, me casei e saí da concentração.

Aí você foi campeão Carioca juvenil em 70 e subiu ao profissional em 71? Como foi esse processo?

R.G – Eu cheguei a ir pro profissional e descia, o pessoal me pedia na base e no profissional. Eu fui campeão de 71 sem jogar, só participando no banco. Eu tenho a fotografia em que estão os campeões de 70 ou 71, porque lá estávamos, poucos juvenis, eu acho  que o Abel, Nielsen e Zé Roberto. Nós participamos desse jeito, puxavam e depois devolvem de novo a base. Às vezes ficava no banco ou entrava.
No Fluminense também havia outra coisa, tinha uma administração impecável, procurava saber lá quem é José de Almeida, ele tinha nos livros tudo escrito, queria saber tal jogo de tal ano, e tava lá. Eu acho que devem ter acabado com isso, não devem ter preservado, não sei. Você que corre atrás disso pode procurar saber. Depois passou a ser Roberto Alvarenga, depois o Flu deu umas caídas que não valem nem a pena.

Depois, você quando começou sua carreira na seleção olímpica, foi logo campeão do torneio de Cannes em 71 e foi às olimpíadas de 72 em Munique.

Seleção Olímpica em 1972. Fonte: Revista Placar.

R.G – O Fluminense cedeu 4, ou 5 jogadores pra seleção juvenil, fomos os primeiros campeões de Cannes (hoje Toulon). Aí eu, Zé Roberto, Marquinhos, Abel, Nielsen, Marinho (um que jogava de zagueiro). O juvenil cedia à seleção juvenil. Depois fomos campeões do pré-olímpico na Colômbia em 71, daí então fomos pras olimpíadas de 72.

Que foi a Olimpíada que teve o atentado, certo? Quais são suas memórias desse evento?

R.G – Foram alguns episódios que ficaram marcados. Precisávamos ganhar da Hungria, ganhávamos de 2×1 e classificaríamos. Faltando não sei quantos minutos, só vendo os arquivos do COB, a Hungria empatou nos minutos finais, o cara acertou um chute de fora da área, aí saímos praticamente, porque depois tinha um jogo contra o Irã, todos arrasados, saímos das olimpíadas precocemente. Também naquela época, existia a chamada Cortina de Ferro, e esses países do guarda-chuva da União Soviética não tinham profissionalismo, a Hungria fazia parte. Aí, o que acontece é que a Hungria participava com jogadores na Copa do Mundo, sem limite de idade. E nós aqui tínhamos limite até 20 anos. Não sei quando foi que aceitaram 22, ou 23, depois ainda com algumas exceções. Aí ficou uma coisa mais forte, 1 ou 2 jogadores de habilidade significam muito e podem desequilibrar. 

O outro fato marcante foi esse, eu tinha saído com Dirceuzinho, morávamos na vila, ele era um rapaz que adorava dar presente aos amigos, saímos ao centro de Munique, ele comprou um monte de presentes pros amigos e eu ajudando ele. Na hora de entrar na vila, estava fechado, mesmo sendo atleta, brasileiros do futebol, mostramos o cartão de identificação, mas a área estava fechada, isolada, aí fomos descobrindo aos poucos. Havia acontecido um atentado dos palestinos aos atletas israelenses. Foram fatos marcantes em minha passagem de Munique.

Esse Dirceu, é o mesmo Dirceu da Máquina?

R.G – É, esse mesmo. Dirceuzinho que chamávamos. Ele era muito amigo da gente, era um parceiro e tanto. Uma alma fantástica, mas acabou indo mais cedo do que normalmente se vai. 

Falando no Dirceu, vou ter que lhe perguntar da Máquina também, porque você foi testemunha e protagonista de uma década que, particularmente, acho a mais sensacional. Desde o começo, Carioca de 69, Brasileiro de 70, Cariocas de 71, 73, 75, 76, e 80. Foi pentacampeão do Carioca quando valia outra coisa. 

R.G – Eu guardo com muito carinho. Mais do que a Máquina, porque a Máquina foi algo muito inusitado, era um jogador criado no clube participando com jogadores da seleção brasileira, tinha uns 4 ou 5 de seleção, mas, principalmente o de 73, que eu joguei, e só não joguei a final porque havia sido expulso equivocadamente, no jogo contra o Botafogo que o Flu ganhou de 1×0, a final foi contra o Flamengo. No meu lugar jogou o Marquinhos, um meio campo, que fez essa função na direita que eu fazia. 

Flu Campeão Carioca 1973. Fonte: Cidadão Fluminense.

Mas, mais do que esses, foi o campeonato de 80. Porquê? Esse de 80 foi um time em que foi 90% do Fluminense, só tinham 2 jogadores que não foram criados ou formados no Flu, que eram Adão e Gilberto. Todos eram ali do clube. Todos eram da família tricolor, aquilo dali me deixou muito marcado. Era fantástico, a gente participava com todos os colegas, e garotos que vimos crescer no dia a dia. Eu acho que o mais velho era eu, tinha uns 27 ou 28 anos. 

O time era Paulo Goulart, Edevaldo, Tadeu, Edinho, e Rubens Galaxe. E mais pra frente? 

R.G – Delei, Mário, Robertinho, Cláudio Adão, Gilberto, e Zezé. Foi muito bom ter participado. Claudio Adão se encaixou com a gente demais. Ficou como se fosse do Fluminense mesmo, criado com a gente. Esse foi um time e campeonato muito marcante na minha passagem.

Você também, antes disso, havia sido emprestado para um time na Colômbia, certo?

R.G – No segundo semestre de 74 e no primeiro semestre de 75, fui emprestado ao Millonarios da Colômbia.

Rubens pelo Millonarios em 74. Fonte: Acervo do atleta.

O Millionarios é o time que vamos pegar agora na Libertadores.

R.G – Já saiu o sorteio?

Isso, na pré-libertadores vamos pegar eles, o Millonarios. No final de fevereiro. Joga primeiro lá e depois aqui.

R.G – É Bogotá, tem 2400m de altitude, ou 2600m por aí, complicado.

E como foi sua experiência lá na Colômbia?

R.G – Em 71 jogamos o pré-olímpico lá, passamos 2 meses na Colômbia para aclimatar na altitude. Tinha que chegar antes, para ir aumentando os exercícios, e lá acabei conhecendo minha futura mulher. Depois que me tornei profissional, através de contatos lá, consegui que o Fluminense me emprestasse para Colômbia.

Na sua volta começa a famosa Máquina Tricolor. Na Máquina, você jogou de lateral direito, certo? Tenho que comentar da sua polivalência, jogou de tudo menos de goleiro.

R.G – Isso, mas na maquina só de lateral direito, porque era um time certo. O lateral direito era o Carlos Alberto, que pela idade não tava querendo mais ir de lateral, quis de zagueiro. Aí eu inverti com Carlos Alberto, fui pra lateral. Imagina, Carlos Alberto Torres. E aí não houve mudança, fiquei de lateral durante a Máquina. Agora, o que é mais interessante pra mim, consegui ser campeão, através dos colegas também evidentemente, de: meio-campo, lateral esquerdo, lateral direito, de meia ponta de lança em 73, e fomos campeões da Taça Guanabara que Pinheiro me puxou para falso ponta esquerda. Consegui não sei como, não sei se era o amor tão grande que tinha pelo clube que me formou. Ou se era vontade de retornar aquilo que o clube me deu, caráter e formação. Vim criança para o clube, acho que aquilo me deu essa vontade. Onde precisa? Eu vou. Tá precisando? Eu vou. Coisa que hoje não se faz, é mais raro um jogador multifuncional, tem uma valorização especial. Naquela época não, você jogava como titular enquanto estiver jogando bem. Nesse lado eu carrego minha homenagem ao próprio Fluminense, que me deu o que recebi na vida.

A torcida te deve muito, você é o sexto jogador com mais partidas pelo Fluminense, sem nunca ter sido vaiado em 463 jogos.

R.G –  Não que eu me lembre pelo menos. Acho que posso dizer isso (risos). Um carinho muito grande

Acho que a torcida reconhece a entrega!

R.G – Sim, reconhece, foi realmente uma entrega muito grande.

E qual foi o melhor time que você jogou no Fluminense? Sabe escalá-lo?

R.G – O melhor time só pode ser a Máquina, não tem como escolher qualquer outro. O time o qual eu joguei, que você sabe de cór. Joguei na lateral direita com Carlos Alberto, Edinho e Rodrigues Neto. Paulo César, Rivelino, Pintinho. Gil, Doval, Dirceu. Entrava Miguel, Kleber… Esse é o time que realmente foi o melhor. Mas o time de mais coração mesmo foi de 80, coração tricolor. 76 foi o time que éramos melhores, houve uma injustiça enorme por não ter participado de uma final do Brasileiro. Perder para um Corinthians inferior, e nos pênaltis, com batedores que nunca erravam, com campo todo molhado. Como dizia Nelson Rodrigues, os deuses não queriam.

Mas você também teve muitas glórias no clube, o próprio bi Carioca de 75-76 tinha outro peso, né?

R.G – Tinha, tinha muito. Além de que o nível era muito mais elevado. Elevadíssimo. Temos ainda inúmeros torneios, o Torneio de Paris, a Taça Teresa Herrera. 

O Fluminense viajava muito para jogar, você lembra de alguma excursão marcante?

R.G – Na realidade, naquela época o calendário era sempre preenchido, o campeonato brasileiro, não parecia, mas disputávamos bastante. Fomos a África, lá teve uma história engraçada, entramos no hotel e não tinha água em nenhuma bica, só que depois de testar pra ver se saía água, esquecemos de fechar algumas torneiras. Quando voltou a água de madrugada, inundou tudo com a gente dormindo lá (risos).

Essa viagem foi para a Nigéria em 78? Que jogaram com Pelé?

R.G – Exatamente, além desse fato do Pelé ter vestido a camisa do Fluminense, e jogado um tempo conosco. E por imposição da torcida, viu? A torcida quando soube, levantou toda e exigiu que jogasse. Tem uma foto histórica vestindo a camisa do Fluminense.

Inclusive você está do lado dele na foto, certo?

R.G – Exatamente (risos), tive a ousadia de sair do lado dele.

Falando assim, tirando o Pelé que não se pode considerar, quem foi o melhor que você jogou ao lado? Aquele que foi fora de série.

R.G – Tem que ser na época da máquina em 76. O que eu via o Rivelino fazer com a bola, a gente pra fazer com a mão ficava muito difícil, e ele fazia com os pés. O Carlos Alberto com toda galhardia jogando, parecia um nobre jogando, uma coisa fantástica. A técnica do Paulo Cezar… E outros que tinham tanta técnica mas menos nome. E lembre-se que eles vinham de um campeonato mundial, de 70, do tricampeonato mundial. Isso era também algo que deixava todo mundo marcado para a história. Não tem como não mencionar esses nomes.

Uma última pergunta, Vi em uma Revista Placar de 77 que você é fã de Gabriel García Márquez, sou muito também, um dos meus favoritos é seu livro “100 anos de solidão”. Qual sua relação com esse autor?

R.G – Esse livro ainda não li, mas toda sua criatividade, isso sim. Suas inspirações do interior da Colômbia à sua própria história. Quando o livro é bom, eu leio por etapas, Gabriel García Márquez é fantástico.

Rubens, não tenho como te agradecer por me atender desse jeito, muitíssimo obrigado pelo seu tempo.

R.G – Você não tem nada que agradecer, eu fico muito satisfeito em lhe atender.