Entrevista Zé Roberto Padilha

Entrevista com Zé Roberto Padilha, ídolo, campeão juvenil em 70 e carioca de 70, 73 e 75. Pulmão do Gérson, Acelerador da Máquina.

Você chegou no Fluminense em 1968, no juvenil, do América de Três Rios. Como foi o processo de chegada? Quem te levou pro Fluminense? 

Z.R: O América de Três Rios foi campeão infanto-juvenil da cidade, lá tem muitos tricolores e os dirigentes chamaram o Fluminense para fazer a entrega de faixas. O Flu veio com um time muito forte, sendo campeão Carioca no mesmo ano também. Esse dia eu devo ter me destacado, porque recebi um convite. Depois do jogo Roberto Alvarenga foi no vestiário e fez um convite ao meu pai para me levar pro Fluminense fazer teste, eu e um cabeça de área. Daí nós fomos às Laranjeiras, devo ter ido umas cinco vezes, fui ficando até que o Pinheiro me aprovou como meia-esquerda para jogar no juvenil. Aí fiquei, em 1968 fui para concentração e foi assim que eu cheguei.

Vejo em muitas entrevistas de ex-jogadores a grande referência que Pinheiro foi para eles, muitos passaram por ele. Como era sua relação com Pinheiro?

(Zé Roberto na base, fonte: Revista do Fluminense)

Z.R: A mais difícil e a mais proveitosa. Ele era muito exigente. Pinheiro cobrava muito da gente, lembro de um jogo que ganhávamos de 5×0 do Campo Grande, lá em Ítalo del Cima, todo mundo feliz e ele comeu a gente no esporro, sempre achava que tínhamos um pouquinho a mais para dar. Mas nisso às vezes ele exagerava, nunca dava uma moral. Nunca estava satisfeito, era ríspido, duro e exigente, mas foi muito bom para nossa formação.

Você foi campeão juvenil em 70 pelo Flu, subiu ao profissional em 71 e já foi campeão da Taça Guanabara?

Z.R: Isso, por isso fomos para seleção de base. Quando o Brasil foi tricampeão, quiseram montar um bom time de base, aí o que aconteceu? O treinador pegou o campeão Carioca juvenil e formou a base da seleção, éramos 7 do Fluminense. Depois, quando Lula e Marco Antonio voltaram da seleção, em 71 voltei pro banco. Aquela final que o Marco Antônio deu um chega pra lá no Ubirajara e Lula fez o gol. Se tem o VAR não davam (risos).

Aquele time tinha Cafuringa, Lula, Flávio… Sabe escalar o time?

Z.R: Lembro, mas posso me enganar. Félix, Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antonio. Denílson, Didi, Cafuringa, Flávio, Samarone, Lula. Esse era o time que eu era torcedor, sabe? Não me lembro se esse era exatamente o time que ganhou, mas naquele tempo time durava 3, 4 anos.

No Fluminense você teve técnicos como: Pinheiro, Paulo Amaral, Zezé Moreira, Parreira, Didi e Jair Rosa Pinto. Qual foi o técnico que mais gostou de trabalhar?

Z.R: Foi o Evaristo, mas ele eu só peguei lá no Santa Cruz. Quando ele assumiu o Santa Cruz o primeiro jogo foi Atlético Mineiro x Santa Cruz, 1×0 gol do Reinaldo no Mineirão. Aí ele olhou pro time e perguntou: “Quem é o lateral? – Quem é o zagueiro central?”, e reclamava. Até que chegou minha vez. “Quem é o ponta? – te vi no campo inteiro, esquerda, direita, e não produz nada, uma confusão tática!” Gritou pra mim… Pegou um quadro negro desenhou uma linha reta na metade do campo e disse “Se você passar pro lado direito do campo eu te barro”. Mas ele me ajudou muito, virei até artilheiro no Santa Cruz.

Você marcou apenas 4 gols seus com a camisa do Flu, não foi uma carreira conhecida por isso. Você lembra de algum que mais te marcou?

Zé Roberto, segundo na fileira do meio. Fonte: Revista Fluminense.

Z.R: Lembro de um contra o Corinthians no Maracanã em 72 ou 73, algo assim. Marco Antonio bateu pra mim do lado da barreira, toquei pro outro lado e foi gol. Meu irmão mais novo, Mauro, que gravava as fitas dos jogos, quando eu fiz o gol ele gritou lá em casa: “Gol do Robertinho!”, aí um silêncio enorme, e ele gritou de novo: “Gol do Beto!”, minha irmã foi pra janela perguntar: “Tem certeza mesmo que foi dele?”, minha mãe e meu pai foram no vizinho desacreditados comemorar, mas quando Mauro convenceu todos que eu tinha feito o gol, já estava 3×1 pro Corinthians, 2 de Vaguinho e 1 de Rivelino. Aí ficou essa história né, quando eu pegava na bola tinha que falar do patrocinador, quando a bola tá com o Rivelino, vai falar do patrocinador? Bola com Gil, Manfrini, Edinho, Marco Antônio… quando a bola chegava em mim o narrador falava “Brahma na Jogada, compre os produtos Brahma, cruzou e gol!” Já ninguém sabia quem tinha cruzado. Começaram a me sacanear, mas a bola não saía de campo, o nível era muito alto.

Você pegou 3 times muito fantásticos, o de 69-71, 73-74, e a Máquina de 75. O time de 74 com Gérson, como era jogar com ele? Ele de 8 e você de 11.

Z.R: O Garotinho, que tava começando, me chamava de Pulmão do Gérson nas narrações. Aí fiquei com esse apelido, Gérson ficava paradinho, eu corria e pegava a bola para ele, ele pedia e eu entregava. Ele dizia: “Dá aqui garoto”. Então, eu falo isso pro meus filhos: No Fluminense e no Flamengo eu joguei para dar alegria pro Marco Antonio, pro Junior. Porque eu não joguei, eu joguei pros caras, roubava a bola e entregava. Eu roubava tanta bola… Teve um jogo que eu possibilitei um fim de carreira de um jogador, chamado Carbone, eu falei isso no livro. Minha irmã contava quantas bolas eu roubava. Porque eu só roubava, o cara parava eu vinha e roubava. No Fluminense e Botafogo, 3×1, eu roubei 5 bolas do Carbone, você sabe o que é roubar 5 bolas de um mesmo jogador? E chegou terça-feira, o Zagalo encerrou a carreira dele, virou técnico. Agora, quando eu fui pro Americano, Goytacaz, que eu fui com a 10, eu pensei “Puta que pariu, eu sei jogar bola também”. Mas antes eu abri mão disso pra ser útil e ter um lugar no time. A minha função era marcar, o time já atacava muito. Consegui ser titular, mas jogar bola mesmo eu praticamente não joguei não, só pelos outros.

Mas ser chamado de pulmão do Gérson é um grande elogio. O motorzinho da equipe que faz funcionar.

Z.R: Outro apelido carinhoso meu era o do José Carlos Araújo durante a Máquina, quando eu pegava a bola ele falava assim: “Com a bola, o Acelerador da Máquina”.

Falando da Máquina… Os times de 75 e 76 foram dois dos melhores times da história do Fluminense. Até para quem não viu jogar como eu, quando penso em Fluminense, aquele modelo da camisa tricolor clássica é a primeira coisa que vem à cabeça. Como foi jogar naquele time? Se sentia pressionado?

Z.R: Nessa época o Fluminense contratou um psicólogo, o primeiro psicólogo do futebol. Se você pesquisar o nome dele, aparece lá na Máquina. Eu estava com a cabeça muito complicada por causa do Mário Sérgio, o Horta o queria muito no time. Ele estava montando um ‘dream team’, todos habilidosos, todos fora de série. Só que o Didi falava: “Quem é que vai marcar?”. Ele tinha que sacrificar alguém, eu e Zé Mário marcavamos, o resto atacava. O Horta fazia essa pressão no treinador, queria o Mário Sérgio jogando, isso me incomodava tanto… O psicólogo me ajudou muito. Tenho que lembrar o nome dele, foi um dos primeiros. Ele ía no quarto, conversava comigo. Deixar o Mário Sérgio no banco era uma responsabilidade enorme, não podia perder, se perdesse… O Mário Sérgio entrava, foi contratado a peso de ouro na época.

Psicólogo do Fluminense, 1975. Fonte: Revista do Fluminense.

Numa Revista Placar que li da época havia uma matéria que dizia o custo da transferência de Mário Sérgio, 700.000 Cr$. Vocês alternavam titularidade? Como era o Mário Sérgio?

Z.R: Mário Sérgio era um gênio né. Depois de sermos Campeões Cariocas em 75, fomos disputar o Torneio de Paris, Paulo Emílio veio conversar comigo e disse: “Zé, aqui todo mundo corre, deixa o Mário Sérgio jogar, habilidade contra força, e você vai ser mais um pra correr contra os caras”. O Mário Sérgio deu uma exibição de habilidade, o time foi um espetáculo, foi maravilhoso. Na Europa eu entendi que o Mário Sérgio se encaixava melhor. Foi um espetáculo que deram no Parc des Princes, nossa senhora. O que eu guardo muito desse jogo, foi o primeiro Torneio de Paris que eles promoveram, o PSG não era tão famoso, eram 4 times apenas (Fluminense, PSG, Valencia, Sporting), mas chamaram o Cruyff para usar a 10 do PSG. Isso em 75, Laranja Mecânica era 74. Foi muito bacana, levou muita gente ao estádio. Aí no final de um dos jogos deles, nós descemos pra pegar autógrafo dele, e na volta o Paulo César (Caju) deu na gente um esporro: “Vai tomar no cu seus juvenil, tão jogando com Rivelino, Paulo César, e vão pedir autógrafo pro Cruyff?!”. Eu tenho até hoje um autógrafo dele numa bandeira do Paris Saint-Germain. Paulo César é um pouco vaidoso né? 

Delegação parte para Paris, 1975. Fonte: Revista do Fluminense.

Na época da Máquina, como era o ambiente de trabalho? Como era o profissionalismo?

Z.R: Era maravilhoso, sabe porquê? Aquele negócio que eu lhe contei, aos sábados, ao invés de ficar na concentração, nós íamos às peças de teatro, ver Paulo Autran, Tônia Carrero… Um negócio maluco, inspirava a gente.

Fluminense vai ao teatro Mesbla, 1975. Ao centro está Françoise Forton. Fonte: Acervo pessoal do jogador.

Você consegue escalar o time da Máquina que jogou?

Z.R: Félix, Toninho, Silveira, Assis, aí o Assis se machucou e entrou o Edinho, depois nunca mais Assis pisou no gramado, não me lembro de alguém se impor como Edinho. Aí, Marco Antonio, eu, Zé Mário, Rivelino e Paulo César, na frente Manfrini, Gil e o Mário Sérgio. Rubens Galaxe, Kleber, Pintinho, Erivelto… Esse time não posso esquecer porque ganhou tudo, só perdemos pro Internacional que nos eliminou em 75.

E teve o episódio que virou história, o troca-troca, no qual você foi um dos protagonistas. Li em matérias da época que foi um processo não tão fácil. Como foi para você?

Z.R: Eu cheguei em 68, e só me afirmei em 75, o Didi me queria dentro do time e não quis abrir mão de mim. É justo nesse momento que me trocam, eu fiquei muito chateado, reclamei, briguei, mas no final quando o clube quer se livrar de você… E o sonho do Horta era o Doval, que era bonito dos olhos azuis. Enquanto ele não teve o Doval, ele não sossegou. Além disso, o Flamengo me queria, eu tinha feito uma partida contra o Flamengo impecável, 3×0 no Brasileiro, passei a ser objeto de cobiça do Flamengo. Aí os dois clubes queriam, e acabei indo pro Flamengo.

Uma última pergunta, qual seu time do coração?

Z.R: No colégio eu rabiscava o escudo do Fluminense no caderno. Meu avô me fez ser tricolor, era uma família toda América, e ele o único Fluminense, me fez um torcedor também. Ele me colocava no colo e a gente escutava os jogos juntos: “Bola com Joaquinzinho, Amoroso…”. E quando o Flamengo pegava na bola ele abaixava o volume do rádio e começava a contar história. Me tornei torcedor do Fluminense por causa do meu avô.